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O silêncio que mata: Registros de violência contra a mulher expõem uma tragédia cotidiana

  • Foto do escritor: Vilmar Bueno, o ESPETO
    Vilmar Bueno, o ESPETO
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

FOTO: Rodrigo Corrêa/Agência AL

Dados da Alesc revelam 198 casos de violência por dia em SC; desrespeito a medidas protetivas e ausência de denúncias em feminicídios acendem alerta máximo.

Um "X" na palma da mão é um sinal silencioso de que uma mulher está em situação de violência doméstica ou abuso e precisa de socorro


FOTO: Rodrigo Corrêa/Agência AL

Histórias interrompidas, vozes caladas e famílias devastadas. Em Santa Catarina, a violência contra a mulher deixou de ser um dado estatístico distante para se tornar um retrato doloroso e repetitivo da realidade. Por trás de cada número, existe uma vida, uma trajetória e um pedido de socorro que, muitas vezes, não chegou a tempo. “Por favor, eu tô pedindo... você quer que eu me ajoelhe? Eu tenho um filho...”


Frases como essas, ditas por Priscila Dolla, instantes antes de ser morta pelo namorado, nesta semana, em Rio Negrinho, passam a se repetir na voz de tantas mulheres — e de tantas outras que sequer têm tempo de dizer algo.


Estatísticas e o Papel do Observatório

De acordo com dados do Observatório da Violência Contra a Mulher, da Assembleia Legislativa, entre 2020 e 2025 foram registrados 445.225 crimes de violência contra a mulher no estado, o que representa, em média, 198,5 casos por dia, ou mais de oito por hora. A idade média das vítimas gira em torno dos 36 anos.


O Observatório foi implantado em 2021 com o objetivo de compilar dados, analisar a violência, subsidiar a formulação de políticas públicas e criar uma base unificada para monitorar a violência contra a mulher no estado.


Entenda o Observatório da Violência Contra a Mulher (OVM/SC)

O que éO Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC) é uma iniciativa que reúne e organiza informações sobre violência de gênero no estado, oferecendo dados e conteúdos para análise, acompanhamento e qualificação de ações públicas.


Como funciona na prática

O OVM/SC disponibiliza indicadores, publicações e recursos de consulta para apoiar o monitoramento do cenário de violência contra a mulher. O objetivo é facilitar o acesso a informações consolidadas, com recortes e séries históricas, para acompanhamento contínuo.


Quem participa

O Observatório atua de forma articulada com diferentes instituições e órgãos que produzem ou utilizam dados e informações relacionadas ao tema, contribuindo para uma visão integrada e para o fortalecimento das redes de proteção e enfrentamento.


O que muda para a sociedade

Ao ampliar a transparência e a leitura qualificada dos dados, o OVM/SC contribui para subsidiar políticas públicas, orientar debates, apoiar pesquisas e fortalecer estratégias de prevenção e atendimento.


Critérios, recortes e atualização

Os números e análises podem variar conforme o tipo de dado (por exemplo, registros administrativos e informações judiciais), os recortes (ano, município, tipo de ocorrência) e a periodicidade de atualização das bases utilizadas.


Como acessar

Os relatórios, publicações e o painel de indicadores estão disponíveis no

portal oficial: ovm.alesc.sc.gov.br


A Emergência Social e o Ciclo da ViolênciaA coordenadora do Observatório da Violência Contra a Mulher da Alesc, deputada Luciane Carminatti (PT), alerta para a dimensão humana por trás dos números. “Quando olhamos para esses dados, não podemos enxergar apenas estatísticas. Cada registro representa uma mulher que sentiu medo dentro da própria casa. Não podemos naturalizar quase 200 casos por dia. Não é normal. É uma emergência social”.


Carminatti ainda enfatiza que o ciclo da violência mantém um padrão. “Na maioria dos casos, o agressor é alguém de dentro de casa: companheiro, ex-companheiro, namorado ou marido. A violência não surge de repente. Ela começa no controle, na humilhação, na ameaça, na ideia de posse. É fruto de uma cultura machista que naturaliza o poder do homem sobre a vida da mulher”.


Falhas na Proteção e Medidas Protetivas

A deputada também alerta para um dado preocupante. “Quando a mulher decide romper o silêncio e pedir ajuda, o Estado precisa estar presente e ativo, mas ainda temos muitas falhas. Santa Catarina é o 2º estado do Brasil com maior taxa de descumprimento de medidas protetivas: uma em cada quatro ordens judiciais é desrespeitada.


Medida que não é fiscalizada não protege ninguém.”

Na sessão ordinária da última quarta-feira (18), a deputada Paulinha (Podemos) lamentou o caso recente de feminicídio registrado no Planalto Norte. Ela ressaltou que os dados apontam que a violência contra a mulher não começa com o homicídio, mas sim com as ameaças, que lideram os registros, com mais de 205 mil casos nos últimos cinco anos.


Ações Reais e Novos Protocolos

“Está mais do que na hora de transformarmos essa indignação em ações reais que evitem que essa verdadeira epidemia de violência contra a mulher continue. O ciclo que muitas vezes termina em morte se inicia na violência psicológica, na agressão física ignorada. Por isso, precisamos propor a construção de um novo protocolo de ação no Estado”, afirmou a deputada Paulinha.


Entre 2020 e 2025, 329 mulheres foram assassinadas. Em grande parte dos casos, o agressor já fazia parte da vida da vítima: esposos, companheiros, ex-companheiros ou namorados. Outro indicador alarmante é o silêncio que antecede a tragédia: 85,7% das vítimas de feminicídio não tinham boletim de ocorrência contra o autor.


Padrão de Reincidência e Dados de 2026

Por outro lado, 71,4% dos agressores já possuíam algum registro policial, evidenciando um padrão de reincidência e risco previsível. Em 2026, considerando os dados parciais do ano, já foram registrados 6.983 casos de violência contra a mulher, 3.107 ocorrências de ameaça e 1.759 de lesão corporal.


Cinco feminicídios já foram contabilizados e, em 80% deles, não havia registro prévio da vítima contra o autor — um retrato doloroso da subnotificação e do medo que ainda silencia mulheres. Até a data desta publicação, quatro mortes de mulheres foram registradas apenas no mês de fevereiro.


Crescimento Constante dos Registros

Informações do Observatório revelam ainda uma curva preocupante de crescimento dos registros ao longo dos últimos anos. Em 2020, foram 64.007 ocorrências. Em 2021, o número saltou para 70.191. Em 2022, chegou a 72.047. Em 2023, atingiu 77.949 registros. O patamar segue elevado, consolidando um cenário de violência persistente e estrutural.


O Ministério Público de Contas de Santa Catarina também reforça que o enfrentamento à violência de gênero exige vigilância permanente. “A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural. Nenhuma mulher deve viver sob ameaça e o direito a uma vida digna é inegociável”, afirmou a procuradora-geral Cibelly Farias.

Acesso à Justiça e Acolhimento


A defensora pública e coordenadora do comitê gestor do OVM/SC, Anne Teive Aura, ressalta o papel do acesso à justiça. “Muitas vezes, esse silêncio está relacionado ao medo ou ao desconhecimento sobre seus direitos. É importante saber que existem instrumentos legais, como as medidas protetivas de urgência. A Defensoria Pública é um dos espaços de acolhimento gratuito.”


Evolução das Medidas Protetivas

Os números das medidas protetivas reforçam o tamanho da urgência: somente em 2025, Santa Catarina registrou 31.655 medidas protetivas requeridas. Em janeiro de 2026, já foram 3.223 pedidos. Em 2020, foram 16.257 medidas requeridas; em 2023, avançou para 28.167; e em 2024, alcançou 30.234.


O crescimento contínuo indica não apenas a dimensão da violência, mas também maior conscientização e fortalecimento das redes de proteção, que encorajam mulheres a romper o silêncio antes que a violência escale.


Canais de Denúncia e AjudaVocê não está sozinha. Denuncie.Em caso de emergência, ligue 190.Para denúncias anônimas, disque 181.

Além do registro de ocorrência nas Delegacias de Polícia, a Polícia Civil disponibiliza o registro de ocorrência virtual e um canal de denúncia pelo WhatsApp (48) 98844-0083. No site do Observatório da Violência contra a Mulher, estão listadas as unidades de saúde, CREAS, Defensoria Pública e Procuradorias da Mulher em cada município catarinense.


Perguntas Frequentes

1) Quais são os números da violência contra a mulher em SC nos últimos anos?

Entre 2020 e 2025, foram registrados mais de 445 mil crimes, o que representa uma média de quase 200 casos por dia no estado.


2) O que os dados revelam sobre o perfil dos agressores em casos de feminicídio?

Em 71,4% dos casos de feminicídio, os agressores já possuíam histórico policial prévio, indicando um comportamento reincidente e risco previsível.


3) Qual a eficácia das medidas protetivas em Santa Catarina?

Embora o número de pedidos esteja crescendo (mais de 31 mil em 2025), SC é o 2º estado com maior taxa de descumprimento, com uma em cada quatro ordens desrespeitadas.

4) Por que a subnotificação é um problema grave nos feminicídios?

Aproximadamente 85% das vítimas de feminicídio não possuíam boletim de ocorrência registrado contra o autor antes do crime fatal, evidenciando o medo e o silêncio.


5) Onde buscar ajuda e como denunciar violência contra a mulher?

Em emergências, ligue 190. Para denúncias, disque 181 ou use o WhatsApp da Polícia Civil (48) 98844-0083. A Defensoria Pública também oferece orientação jurídica gratuita.

Simone Sartori


Agência AL

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