Krelling tem 70 mil votos, três ambições e um problema chamado MDB


Afinado com o governador Jorginho Mello, Fernando já discute e vê possibilidades para o futuro.
Fernando Krelling (MDB) saiu das urnas com 70.506 votos, prestígio político e três projetos para os próximos anos. Mas a entrevista concedida à 89 FM de Joinville, neste domingo (25), durante o programa especial de apuração dos votos, mostrou que o deputado também carrega um problema crucial que é não conseguir decidir seu futuro sozinho.
Em poucos minutos, Krelling falou sobre a presidência da Assembleia Legislativa, o sonho de disputar novamente a Prefeitura de Joinville em 2028 e questões internas que podem determinar sua permanência no MDB.
São três movimentos que parecem independentes, mas estão ligados à relação do deputado com o governador Jorginho Mello (PL) e com um MDB que saiu derrotado das eleições de 2026.
Krelling avisou. O MDB não ouviu.
A declaração mais reveladora da entrevista foi sobre o próprio partido. Krelling contou que defendeu internamente a permanência do MDB ao lado de Jorginho Mello e alertou que a aliança com João Rodrigues (PSD) seria um erro.
O MDB escolheu outro caminho. Rompeu com o governador depois da escolha de Adriano Silva (Novo) para vice, retirou Carlos Chiodini do governo e embarcou na candidatura de oposição.
Jorginho foi reeleito no primeiro turno. O MDB, que havia elegido seis deputados estaduais em 2022, ficou com quatro em 2026.
Ao recuperar essa história, Krelling não fez apenas uma crítica. Apresentou-se como o deputado que estava certo quando a direção partidária estava errada.
É um discurso que fortalece sua posição junto ao governador, mas cria um problema dentro do MDB. Afinal, as lideranças que conduziram a estratégia derrotada continuam tendo influência nas decisões partidárias. E é justamente delas que Krelling pode precisar.
A presidência da Alesc tem dono preferencial
A primeira ambição é presidir a Assembleia Legislativa a partir de fevereiro de 2027. Krelling nunca negou essa pretenção. É o atual primeiro vice-presidente da Casa, conhece os deputados e mantém uma relação de confiança com Jorginho. Mas existe um obstáculo de 16 votos.
Esse é justamente o tamanho da bancada que o PL elegeu para a próxima legislatura. São 40% das cadeiras da Assembleia, enquanto o MDB terá apenas quatro representantes.
Para chegar à presidência, Krelling precisará que Jorginho convença seu próprio partido a abrir mão do comando do Legislativo. Não é impossível. Em 2023, o PL abriu espaço para Mauro de Nadal, também do MDB. Mas agora a situação é outra.
O PL está maior, Jorginho foi reeleito e o partido tem razões para reivindicar a presidência. A proximidade de Krelling com o governador é importante, mas não garante que os interesses do deputado estejam acima dos interesses do PL.
Na entrevista, ele próprio deixou aberta a possibilidade de uma composição para a Mesa Diretora, o que não deixa de ser um bom caminho. Na política, geralmente, quem apresenta um plano alternativo antes da disputa costuma estar negociando.
A saída do MDB depende do próprio MDB
A segunda questão, é mais polêmica, envolve o futuro partidário. Nos bastidores, já se fala que o Republicanos estaria de portas abertas como possível destino de Krelling. A legenda está próxima de Jorginho e poderia oferecer ao deputado um caminho mais alinhado ao governo.
Mas existe um problema jurídico e político. Eleito pelo MDB, Krelling não pode simplesmente trocar de partido durante o mandato sem observar as regras de fidelidade partidária. Uma das alternativas é conseguir uma carta de anuência da própria legenda.
E o obstáculo é grande, pois para sair do MDB, o deputado pode precisar da autorização das mesmas lideranças que criticou publicamente. Há também a possibilidade de permanecer e disputar espaço dentro do partido.
A derrota eleitoral enfraqueceu a estratégia da direção emedebista. Krelling, com mais de 70 mil votos, tornou-se um dos principais ativos eleitorais da legenda. Não seria a primeira vez que uma crítica pública funcionaria como instrumento de negociação interna. A dúvida é se Krelling está preparando sua saída ou aumentando o preço político de sua permanência, pois não é a primeira vez que cogita deixar as fileiras do MDB do qual tem raízes históricas e familiares.
O sonho de 2028 passa por uma fila de candidatos
A terceira ambição é a Prefeitura de Joinville. Krelling voltou a falar no sonho de governar a cidade e disse estar mais preparado do que em 2020, quando terminou a disputa municipal em terceiro lugar. Mas o cenário de 2028 está longe de ser confortável. O deputado conquistou 40.035 votos em Joinville neste ano. Sargento Lima (PL), eleito deputado federal, recebeu 63.693 votos na cidade.
Os números não determinam o resultado de uma eleição municipal, mas ajudam a dimensionar a força de cada liderança. E existe um problema adicional. Se Krelling pretende construir sua candidatura com o apoio de Jorginho, terá de disputar espaço com nomes do próprio grupo governista. Sargento Lima pertence ao partido do governador. Cleverson Siewert, secretário estadual da Fazenda, também aparece nas conversas sobre 2028. E a prefeita Rejane Gambin (Novo) tem a possibilidade de disputar a reeleição.
Jorginho pode manter boas relações com todos. Mas, quando chegar a hora de definir alianças, dificilmente conseguirá agrupar todos os interessados.
Três ambições e muita conversa
Krelling sai de 2026 politicamente fortalecido. Tem votos, experiência, tradição familiar e uma relação privilegiada com o governador. Mas seus três projetos enfrentam obstáculos que não serão resolvidos apenas com prestígio eleitoral. A presidência da Assembleia depende de uma negociação com o PL. A eventual saída do MDB depende de condições políticas e jurídicas. E a candidatura à Prefeitura de Joinville terá de encontrar espaço e apoios.
A entrevista de domingo não foi um anúncio de candidatura nem de rompimento partidário. Foi o início público de uma negociação e de avisos. Krelling tem 70 mil votos e três ambições, mas a grande pergunta para os próximos meses é se usará esse capital político para conquistar novos e importantes espaços.




