Cinema - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
- Vilmar Bueno, o ESPETO

- há 3 dias
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(Imagem: Hamnet)
Qual é o valor da arte?
Com direção de Chloé Zhao e produção de Steven Spielberg, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se apresenta como uma experiência sensorial capaz de fazer o espectador esquecer, ainda que por algumas horas, o mundo exterior.
No centro da narrativa está William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, e sua mulher Agnes, vivida de forma quase sobrenatural por Jessie Buckley.
Os dois se conhecem sob o signo do amor proibido, com a intensidade típica das tragédias, mas o que o filme propõe vai muito além da paixão inicial.
Após o casamento, Zhao se afasta da grandiosidade associada ao nome Shakespeare para observar aquilo que quase nunca entra nos livros: a vida íntima, doméstica e silenciosa que antecede a obra.
Em vez do gênio consagrado, o filme acompanha um homem comum, inserido em uma rotina familiar feita de afeto, trabalho e fragilidade. A narrativa se constrói nesse cotidiano, com atenção especial à figura de Agnes.
O grande eixo do longa-metragem está no diálogo com a história real: sabe-se que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet e que, anos depois, escreveu Hamlet, uma de suas peças mais célebres.
Ainda assim, o filme não tenta explicar essa obra por meio de uma causalidade direta. A intenção parece ser outra: mostrar como grandes criações nascem, muitas vezes, de experiências íntimas, invisíveis e silenciosas.
Hamnet não é um filme sobre a peça Hamlet, mas sobre o silêncio que a precede.
E assim como Shakespeare escreveu Hamlet tentando entender um sentimento que não cabia em palavras, quem assistiu ao filme no cinema parece ter entendido junto: no silêncio, no choro e na emoção compartilhada.
A arte — inútil e frágil — materializa-se na conexão. Uma linha tênue que só existe ali.
A arte cura não porque conserta, mas porque acolhe e cria um espaço no qual a dor pode existir sem precisar ser útil, o luto não precisa virar aprendizado e o amor não precisa gerar retorno.
Em um mundo onde tudo precisa ter utilidade, é bom lembrar que são justamente as coisas que não servem para nada que dão sentido à vida. Como já dizia Nietzsche: “temos a arte para não morrer da verdade”.



