Por que três hectares de tabaco fazem tanta diferença para a agricultura familiar?


Um hectare de tabaco pode gerar aproximadamente R$ 47 mil em receita bruta. Para alcançar o mesmo valor, seriam necessários cerca de 7,53 hectares de soja ou 6,58 hectares de milho, segundo comparação da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra).Faça essa conta para uma família que cultiva três hectares: são aproximadamente R$ 141 mil em receita bruta, um resultado que exigiria mais de 22 hectares de soja ou quase 20 hectares de milho. É claro que receita bruta não é lucro e que cada cultura tem custos, riscos e exigências diferentes, mas esses números ajudam a responder à pergunta que dá título a esta coluna: por que tão poucos hectares de tabaco fazem tanta diferença para milhares de famílias rurais?
É a partir dessa conta que precisamos discutir a produção de tabaco no Brasil. Não estou falando aqui em estimular ninguém a fumar, muito menos em relativizar os efeitos do cigarro sobre a saúde. Estou falando de agricultura, renda, pequenas propriedades e de aproximadamente 136 mil famílias que estão na base de uma cadeia que movimenta bilhões de reais.
Em muitas propriedades rurais do Sul do Brasil, três hectares parecem pouco. São insuficientes para dar escala econômica a culturas extensivas como soja e milho e, dependendo do relevo, nem permitem o mesmo nível de mecanização encontrado nas grandes áreas agrícolas. Para milhares de famílias, porém, é justamente nesse pequeno pedaço de terra que está uma das principais fontes de receita da propriedade.
O tabaco cabe onde muitas culturas não cabem
Na safra 2025/26, cerca de 136 mil famílias cultivaram tabaco no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Foram aproximadamente 309 mil hectares para uma produção superior a 710 mil toneladas.
O tamanho médio da área destinada à cultura ajuda a compreender por que o tabaco construiu uma relação tão forte com a agricultura familiar no Sul. Em pequenas propriedades, inclusive em regiões onde o relevo impõe limitações à mecanização em larga escala, uma atividade capaz de concentrar receita em poucos hectares ganha uma importância econômica muito diferente daquela observada em grandes propriedades.
Por isso, dizer simplesmente que o produtor pode substituir o tabaco por outra cultura não resolve a equação. A pergunta não é apenas o que pode ser plantado naquela terra. É qual atividade consegue gerar renda suficiente dentro da quantidade de terra que aquela família possui.
Essa é uma pergunta econômica, não ideológica.
Diversificar não significa conseguir substituir
Outro dado importante ajuda a desconstruir a ideia de que essas famílias vivem exclusivamente do tabaco.
Na safra 2025/26, as propriedades produtoras movimentaram R$ 23,2 bilhões. Desse total, R$ 12,8 bilhões, ou 55,4%, vieram do tabaco, embora a cultura ocupasse apenas 20,3% da área. Outros R$ 10,35 bilhões foram gerados por atividades agrícolas, criação de animais e produtos granjeiros.
Ou seja, são propriedades diversificadas.
O produtor planta outros alimentos, cria animais e busca outras fontes de renda, mas isso não significa que tenha encontrado uma atividade capaz de substituir economicamente o tabaco nos poucos hectares disponíveis.
Essa diferença entre diversificar e substituir precisa estar no centro de qualquer discussão séria sobre o futuro dessas famílias.
Uma pequena propriedade conectada ao mercado mundial
Quando a folha deixa a propriedade, a escala muda completamente.
O Brasil é o maior exportador mundial de tabaco. Em 2025, foram 561 mil toneladas enviadas para 121 mercados, com receita recorde de US$ 3,389 bilhões.
Também estamos falando de uma cadeia que gera arrecadação tributária expressiva. Somente o setor de cigarros recolheu R$ 13,4 bilhões em tributos federais em 2025.
Temos, portanto, uma cadeia global, exportadora e bilionária que começa, em grande parte, dentro de pequenas propriedades familiares.
E é justamente essa diferença de escala que me chama a atenção.
Porque o agricultor que está na origem dessa cadeia não negocia diretamente com os compradores internacionais. Depois de meses produzindo, ele chega a uma etapa decisiva: a classificação e a comercialização das folhas.
Foi justamente aí que apareceram algumas das principais reclamações da última safra.
Quando chega a hora de colocar preço no trabalho
A safra 2025/26 terminou com produção praticamente estável, mas o preço médio recebido pelo produtor caiu 10,8%, de R$ 20,25 para R$ 18,07 por quilo. A receita bruta do tabaco recuou de R$ 14,57 bilhões para R$ 12,83 bilhões.
Ao longo da comercialização, produtores reclamaram dos preços e dos critérios utilizados na classificação das folhas. Houve mobilizações, acompanhamento das entidades representativas e casos de agricultores que decidiram não entregar parte da produção diante das condições encontradas.
E aqui está uma questão que precisa ser compreendida por quem está longe dessa realidade: classificação não é um detalhe burocrático.
A posição da folha na planta, a cor e a qualidade ajudam a determinar em qual classe o tabaco será enquadrado. Esse enquadramento influencia diretamente quanto o agricultor recebe.
Quando estamos falando de uma família que concentra uma parcela importante da renda anual em apenas alguns hectares, uma diferença na classificação pode representar muito dinheiro dentro da propriedade.
A discussão chegou a Brasília
O assunto acabou chegando ao Congresso.
O deputado federal Pezenti (MDB-SC) apresentou neste ano o Projeto de Lei 2.676/2026, que trata da fiscalização da classificação do tabaco em folha curado e prevê penalidades para o descumprimento das regras estabelecidas pelo Ministério da Agricultura.
A classificação já possui regulamentação. A discussão agora é sobre fiscalização, cumprimento dessas regras e instrumentos capazes de dar mais segurança à relação comercial.
O projeto ainda está no início da tramitação, mas sua existência mostra que uma reclamação que começou dentro das propriedades rurais chegou à agenda política.
E talvez seja exatamente aí que Brasília precise prestar mais atenção.
Quem olha para o produtor que está no começo dessa cadeia?
Quando coloco todos esses números lado a lado, vejo uma contradição que merece ser discutida.
Temos uma cadeia que movimentou R$ 23,2 bilhões dentro das propriedades. O Brasil lidera as exportações mundiais. Há bilhões de dólares entrando no país e bilhões de reais em arrecadação tributária associados à cadeia.
Na ponta inicial, porém, está um agricultor familiar cultivando poucos hectares e questionando se possui instrumentos suficientes para discutir uma classificação que influencia o valor recebido pelo trabalho de um ano inteiro.
Não acho correto dizer que esse produtor está literalmente sozinho. Existem associações, sindicatos, federações, representação parlamentar e outras estruturas construídas ao redor da atividade.
A pergunta que me parece mais importante é outra: ele se sente suficientemente protegido dentro dessa relação?
Porque existe uma diferença enorme entre ter representação e ter poder de negociação.
E é essa diferença que precisa ser discutida.
Não é uma defesa do cigarro. É uma discussão sobre agricultura
Talvez alguém leia esta coluna e pergunte por que discutir uma cadeia ligada ao tabaco.
Eu devolveria com outra pergunta: quem disse que discutir as condições de quem produz significa incentivar o consumo?
O debate de saúde pública precisa existir, assim como as políticas de prevenção ao tabagismo. Uma coisa, porém, não elimina a outra.
Enquanto essa cultura for legal, gerar renda para milhares de famílias, movimentar bilhões de reais, recolher impostos e colocar o Brasil na liderança mundial das exportações, existe uma cadeia agrícola que precisa ser discutida também sob a perspectiva de quem está na propriedade.
Especialmente porque estamos falando, em grande parte, de agricultura familiar.
No fim, volto aos três hectares.
Para quem olha de fora, podem parecer apenas três hectares de tabaco. Para uma família rural, eles podem representar aproximadamente R$ 141 mil em receita bruta e uma parcela decisiva da renda que mantém a propriedade, paga as contas e permite continuar no campo.
Se o Brasil reconhece o valor dessa cadeia quando exporta e quando arrecada, também precisa olhar para quem está na primeira ponta dela quando chega a hora de dividir esse valor.



