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MPSC e ACAERT debatem papel da imprensa na cobertura de feminicídios

  • Foto do escritor: Vilmar Bueno, o ESPETO
    Vilmar Bueno, o ESPETO
  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

Representantes do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão (ACAERT), jornalistas, estudantes e profissionais da comunicação se reuniram nesta segunda-feira (17) para discutir os desafios da cobertura jornalística de casos de feminicídio e outras formas de violência contra as mulheres. O encontro marcou o lançamento do Guia de Boas Práticas para a Cobertura Jornalística de Casos de Violência contra as Mulheres, elaborado pela professora, doutora e pesquisadora Melissa Amaral.

A publicação propõe referências para uma abordagem mais responsável e contextualizada, que preserve a dignidade das vítimas, evite a reprodução de estereótipos e a revitimização e contribua para ampliar a compreensão da sociedade sobre a violência de gênero.

Na abertura do encontro, a procuradora-geral de Justiça, Vanessa Wendhausen Cavallazzi, chamou a atenção para a forma como os casos são apresentados à sociedade e para o risco de narrativas que busquem justificativas para os crimes.

“A forma como informamos importa. Precisamos evitar narrativas que reforcem estereótipos, naturalizem a violência ou busquem justificativas para crimes. O desafio é comunicar com responsabilidade, preservando as vítimas e contribuindo para uma compreensão adequada desses casos pela sociedade”, afirmou.

O presidente da ACAERT, Mário Neves, destacou que a parceria com o Ministério Público busca oferecer ferramentas para auxiliar os profissionais que lidam diariamente com o tema. “Estamos tratando de um assunto difícil e doloroso, mas é justamente por isso que precisamos de sensibilidade e responsabilidade na forma de comunicar. Esse trabalho conjunto oferece aos jornalistas um importante instrumento para qualificar a informação e prestar um serviço cada vez melhor à sociedade”, disse.

Autora do guia, Melissa Amaral ressaltou que o papel da imprensa não termina na divulgação do fato. “As empresas de comunicação e os jornalistas têm o dever de informar, mas também a responsabilidade de promover consciência e transformação social. A maneira como contamos a notícia é determinante para o enfrentamento da violência contra as mulheres”, afirmou.

Cobertura além do crime

Durante o painel, jornalistas de diferentes veículos compartilharam experiências e desafios encontrados nas redações. A coordenadora do Núcleo de Atendimento à Globo em Santa Catarina, Elaine Simiano, defendeu que a cobertura dos feminicídios priorize a contextualização em vez da exploração dos detalhes do crime.

“Nosso papel não é explorar como foi o crime, mas informar e contextualizar. O feminicídio é uma tragédia social e precisamos mostrar às mulheres que elas não estão sozinhas, reforçando também os caminhos disponíveis para a busca de ajuda”, afirmou.

A jornalista da NDTV Juliana Rabelo destacou que as decisões editoriais precisam ser resultado de reflexão, discussão e apuração, e não apenas de uma reação imediata ao factual. Já Schaina Marcon, do SCC, lembrou os desafios enfrentados por repórteres que atuam diretamente na cobertura policial, especialmente diante da circulação cada vez mais rápida de vídeos e imagens de crimes pelas redes sociais.

Entre os participantes, também houve reflexão sobre a necessidade de envolver mais homens no debate. O repórter e colunista do Grupo ND Diogo de Souza chamou a atenção para a predominância feminina na plateia e defendeu que o enfrentamento à violência de gênero não seja tratado como uma discussão restrita às mulheres.

Para a jornalista Soledad Urrutia, do Portal Upiara, o guia ajuda a suprir uma lacuna histórica na formação dos profissionais da comunicação.

“Como jornalistas, temos a responsabilidade de levar a informação de forma correta, mas não fomos formados para lidar com temas tão complexos como o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher. Precisamos aprender. Esse movimento é fundamental e é uma tarefa diária, que exige estudo e reflexão, para que a sociedade tenha consciência da gravidade desse problema”, destacou.

A estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Fernanda Zwirtes também ressaltou a importância da discussão chegar aos futuros profissionais. Para ela, a mudança na forma de abordar a violência contra as mulheres precisa envolver estudantes, jornalistas, editores e instituições, tendo como princípio a dignidade das vítimas.

Mapa do Feminicídio

O encontro também apresentou dados do Mapa do Feminicídio de Santa Catarina, ferramenta do MPSC que reúne informações sobre a violência letal contra mulheres e busca subsidiar políticas e ações de prevenção.

O levantamento considera os feminicídios ocorridos entre 2020 e 2024. No período, 335 mulheres foram assassinadas em razão da violência de gênero, número que corresponde a cerca de dois terços das mortes violentas de mulheres registradas no estado.

Os dados indicam ainda que a maioria dos crimes ocorre em contextos de relações íntimas e familiares. O levantamento também aponta a interiorização da violência, com municípios menores registrando, em alguns casos, taxas proporcionalmente elevadas.

O evento reuniu jornalistas de diferentes veículos, estudantes, membros e servidores do Ministério Público, além de representantes do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, OAB/SC e Defensoria Pública.

A proposta do guia é transformar a cobertura jornalística em mais uma frente de enfrentamento à violência contra as mulheres, oferecendo parâmetros para que a imprensa informe sobre os crimes sem naturalizá-los, culpabilizar as vítimas ou transformar a violência em espetáculo.

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