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Café bate recorde, trigo ameaça pesar no pão; Câmara reage a embargos ambientais automáticos por satélite

  • Foto do escritor: Vilmar Bueno, o ESPETO
    Vilmar Bueno, o ESPETO
  • há 53 minutos
  • 5 min de leitura
Enquanto o café vive euforia, o trigo entra no radar da inflação dos alimentos

O agro brasileiro começa a viver um contraste cada vez mais visível entre culturas que surfam preços, clima favorável e mercado externo e outras que entram pressionadas por custo, incerteza climática e dependência internacional.

O trigo virou o principal símbolo dessa preocupação nesta semana.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou para baixo a estimativa da safra nacional de trigo de 2026, projetando produção de 6,3 milhões de toneladas, uma queda de quase 19% em relação ao ciclo anterior.

O efeito ainda não aparece integralmente nas padarias, mas a cadeia já acendeu o alerta.

Frete mais caro, petróleo em alta, fertilizantes pressionados pela guerra no Oriente Médio, aumento do custo de importação e risco climático no segundo semestre formam uma combinação que começa a pressionar a farinha, e, inevitavelmente, derivados como pão e massas.

Ao mesmo tempo, o café brasileiro caminha na direção oposta. A Conab elevou a projeção da safra de 2026 para 66,7 milhões de sacas, o maior volume já registrado na série histórica da estatal.


Clima, diesel e importação apertam conta do trigo brasileiro

A safra nacional de trigo deve encolher quase um quinto neste ano. Segundo a Conab, a produção brasileira foi estimada em 6,3 milhões de toneladas, reflexo principalmente da redução de 12,5% na área plantada.

Além da menor área cultivada, a produtividade também deve cair.

Segundo o economista da Fundação Getulio Vargas Agro (FGV Agro), Felippe Serigati, o trigo vem sofrendo forte impacto da combinação entre custo elevado de fertilizantes e insegurança climática.

“A safra de inverno é mais sensível a esse choque de custos, especialmente de fertilizantes. Dependendo da disponibilidade ou da qualidade dos insumos utilizados, isso pode levar tanto a uma redução de área quanto a uma nova revisão para baixo da produtividade”, afirmou.

O gerente de acompanhamento de safras da Conab, Fabiano Vasconcellos, também colocou o clima no centro da preocupação.

“Há uma perspectiva de El Niño no segundo semestre, o que deve trazer alguma chuva em períodos não favoráveis à cultura, refletindo na produtividade e no potencial produtivo do trigo”, explicou.


Brasil não teme falta de trigo, mas teme o custo

Apesar da quebra na produção, o setor afirma que o país não corre risco de desabastecimento porque continuará importando trigo do exterior.

O problema está no preço dessa conta.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, explicou que os custos de importação aumentaram significativamente nos últimos meses.

“Houve taxação sobre o trigo importado, além da alta do petróleo, do frete e do seguro. Tudo isso pressiona o custo para os moinhos e, consequentemente, para a produção da farinha”, afirmou.

A pressão aumentou após a Lei Complementar nº 224/2025 retomar a cobrança de PIS e Cofins sobre o trigo importado.

Além disso, a qualidade do trigo argentino, que é o principal fornecedor do Brasil, também caiu, obrigando o país a buscar produto em mercados mais caros, como Estados Unidos, Canadá e Rússia.

“O que preocupa é o custo das novas compras. À medida que o trigo for sendo adquirido mais caro, isso tende a aparecer no custo da farinha”, afirmou Barbosa.


Café brasileiro deve bater recorde histórico em 2026

Se o trigo preocupa, o café vive cenário oposto.

A Conab elevou a projeção da safra brasileira de café para 66,7 milhões de sacas em 2026, crescimento de 18% em relação à temporada anterior. Se confirmado, será o maior volume já registrado pela série histórica da companhia.

O avanço é puxado principalmente pelo café arábica, que deve atingir 45,8 milhões de sacas, impulsionado pelo ciclo positivo da bienalidade e pelas condições climáticas consideradas favoráveis.

Já o café conilon deve alcançar 20,9 milhões de sacas.

O Ministério da Agricultura e Pecuária direcionou R$ 7,36 bilhões do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé) para financiamento do setor no Ano Safra 2026/2027.

Os recursos serão usados em custeio, comercialização, aquisição de café, capital de giro para cooperativas e recuperação de cafezais atingidos por eventos climáticos.


Estados Unidos admitem dependência do café brasileiro

O crescimento da produção acontece num momento em que os Estados Unidos reforçam a importância estratégica do café brasileiro no abastecimento mundial.

Representantes da indústria cafeeira norte-americana afirmaram que o mercado americano depende diretamente do Brasil para manter abastecimento e competitividade.

Hoje, o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café.

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os Estados Unidos seguem entre os principais destinos do produto brasileiro.

A avaliação da indústria americana é que o país ocupa posição estratégica pela capacidade de fornecer grandes volumes com diversidade de tipos e qualidades.


Maçã cai nas Ceasas, mas frio extremo preocupa pomares catarinenses

A Companhia Nacional de Abastecimento também apontou nova queda no preço da maçã nas Centrais de Abastecimento (Ceasas) do país durante abril.

Segundo o Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro (Prohort), o valor médio da fruta caiu 8,06%, puxado pelo avanço da colheita da variedade fuji. Em Goiás, algumas unidades registraram queda superior a 35%.  

Ao mesmo tempo, o frio intenso no Sul acendeu alerta entre produtores catarinenses. São Joaquim registrou temperatura de -5,6°C, congelando pomares de maçã na Serra catarinense.

Segundo o pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Felipe Augusto Moretti Ferreira Pinto, o frio extremo não compromete necessariamente a planta, mas pode afetar a fruta destinada ao armazenamento.

“Se for muito frio, ela pode ficar escurecida depois de 48 horas. A fruta que fica nessa situação precisa ser comercializada imediatamente e não ser armazenada”, explicou.

Hoje, São Joaquim responde por cerca de 25% da produção brasileira de maçã e por aproximadamente 58% da safra catarinense.


Mapa intensifica fiscalização sobre resíduos em maçãs de SC e RS

O Ministério da Agricultura e Pecuária também intensificou o monitoramento de resíduos de agroquímicos na safra de maçã de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A ação será realizada até julho nos dois estados produtores.

Até agora, auditores fiscais federais agropecuários coletaram 92 amostras em municípios como São Joaquim, Fraiburgo e Vacaria, representando mais de 24 mil toneladas da fruta.

Segundo o coordenador de Fiscalização da Qualidade Vegetal do Mapa, Tiago Dokonal, empresas poderão ser autuadas caso sejam identificados resíduos acima do permitido.

“Isso fará com que maçãs eventualmente contaminadas não cheguem aos consumidores”, afirmou.

Desde 2016, o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em Produtos de Origem Vegetal aponta conformidade de 97,3% na produção de maçã brasileira.


Câmara aprova projeto que limita embargos ambientais automáticos

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2.564/2025, que limita a aplicação automática de embargos ambientais baseados exclusivamente em imagens de satélite.

O texto é de autoria dos deputados Lucio Mosquini e Zé Adriano, com relatoria da deputada Marussa Boldrin.

A proposta mantém a possibilidade de uso de imagens de satélite, mas exige notificação prévia e direito de defesa do produtor antes da imposição de medidas cautelares.

Segundo Lucio Mosquini, o sistema atual transfere todo o ônus ao produtor rural.

“O satélite não sabe se aquilo é desmatamento, se houve tempestade ou queda natural de árvores”, afirmou.

Já parlamentares da oposição criticaram o projeto e afirmaram que a proposta enfraquece mecanismos de fiscalização ambiental em áreas remotas da Amazônia.



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